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Psicanálise PDF Imprimir E-mail

 

O trabalho da psicanálise é no sentido de o paciente construir um saber sobre sua causa, verdade singular do seu sintoma (sintoma na acepção psicanalítica).

A psicanálise não trabalha para uma normalização da subjetividade ou enquadre social utilitarista. Diante da queixa do paciente não vai se ocupar de adequá-lo aos apelos sociais na via da alienação das suas próprias causas.

Quando alguém procura uma análise, cabe ao analista escutá-lo sem pré-conceitos, sem pressupostos, sem prejulgar, sem saber. Enveredar pelo caminho das explicações e respectivas soluções é tentador, mas a psicanálise não recua diante do insuportável, isto é, daquilo que o paciente traz de mais particular na sua dor e vai além, para resgatar o sujeito do inconsciente que, na experiência analítica, fala a partir de sua própria divisão.

Para a psicanálise, o sujeito do inconsciente é um sujeito falta-em-ser, sujeito incompleto, dividido. O psicanalista trabalha na direção desse vazio, faz o sujeito deparar com sua falta, com aquilo que o anima em sua existência: o desejo (desejo no sentido que a psicanálise o concebe). Desejo que vai manifestar suas impossibilidades via sintoma.

A atitude do psicanalista diante do sintoma não é de prontamente curá-lo, atacá-lo, ao contrário, vai acolhê-lo como manifestação do inconsciente do paciente, fazendo aí emergir um sujeito desejante pois, é desse sujeito do desejo que a psicanálise se ocupa.

Jussara Bado               

CRP:12/01628               

Psicóloga Clínica                

(criança, adolescente e adulto)  

Fone: 9128.4456            


Quem vai ao psicólogo? 

Muitas pessoas irritam-se, outras ficam profundamente magoadas, e não há quem fique indiferente e surpreso quando lhes recomendem para irem ao psicólogo resolver seus problemas. Há um tanto de razão, pois este tipo de conselho é oferecido em meio a contrariedades, disputas de opinião, com o jeito sutil de agredir, livrando-se da culpa e responsabilidade envolvidas. 

Existem outras que são levadas diante do psicólogo, como é o caso de crianças, das pessoas que fazem testes psicotécnicos, dos hospitalizados, de menores e adultos institucionalizados, de pessoas traumatizadas física e psicologicamente, dos doentes psicossomáticos, dentre as muitas razões que levam profissionais a requisitar o trabalho psicológico interdisciplinar. Há os que decidem ir ao consultório psicológico, pela iniciativa própria, seja porque não estão contentes com o sentido de suas vidas, assumindo a responsabilidade de mudar algo desconhecido que as faz sentir insatisfeitas.  

Mas afinal o que faz o psicólogo? A resposta é simples: escuta.

Quem vai ao psicólogo vai para falar de si, num processo difícil, penoso, complicado, mais de exposição que de desabafo, exigindo disposição de querer saber e confiança em quem escuta.  Para poder escutar o psicólogo contará com o discurso do paciente, com suas palavras e os significados envolvidos. Em situações específicas contará com o auxílio de testes, desenhos e muitas outras técnicas projetivas. 

Se o psicólogo escuta, quem trabalha?

Sempre será o paciente, o qual dedica-se a produzir a cada sessão um novo discurso endereçado àquele que o escuta, aprofundando o conhecimento sobre si mesmo, uma vez que também é ouvinte privilegiado.  

Este trabalho não é nada fácil, iniciar a falar de si muitas vezes nem sabendo sobre o que falar, ou donde começar, justo a um desconhecido.

Como em qualquer diálogo,  é uma conversa com dois atores, um com a função de falar de si, o outro com a função de escutar.  

O diálogo se processa da seguinte forma: de um lado, o paciente oferecendo um discurso incompleto, inacabado, enigmático, cheio de buracos, falhas e faltas a decifrar e preencher; a contraponto, o psicólogo acolhe com uma escuta imperfeita, incompleta, impotente, escancarando a ambos a falta em ser (perfeito), provocando a inquietação necessária a provocar o trabalho na relação analítica.

O psicólogo merecendo a confiança do paciente, conhecerá muitos detalhes de sua história, de sua vida interior, os sentimentos envolvidos, sejam nobres ou não. Pois é exatamente este esforço do dizer de si, com todas as implicações, julgamentos e avaliações que ocorrem quando uma pessoa se permite falar, que chamamos de trabalho analítico. 

E como o psicólogo retribuirá a confiança oferecida pelo paciente? Com ética. Escutar o paciente, acolhê-lo e compreendê-lo em sua humanidade, não julgá-lo, não interferir na suas decisões, salientar o que houver de significante em seu discurso, e preservar sua integridade física e psíquica com extremo respeito, observando os preceitos legais do Código de Ética da profissão do Psicólogo.

Seguir os preceitos da ética corresponde a não somente garantir o sigilo a cerca de tudo quanto for dito no contexto clínico, mas o de respeitar o contexto sócio-cultural em que o paciente se insere, bem como não interferir em suas decisões, considerando os seus valores, sua moral, seus costumes, sua dignidade e ética própria, sem oferecer julgamento ou interferir em seus atos.  

Consideração de exceção serão necessárias nos casos de menores de idade quando os pais acompanham o tratamento, sempre que a vida do paciente estiver correndo riscos, ou o paciente for portador de doença mental grave.   

E porquê o tratamento demora tanto? Trata-se da revisão de uma vida, analisando os eventos marcantes, os sentimentos envolvidos, descobrindo os outros fatos vividos que teriam correlação, buscando algo que faça sentido.

O trabalho na clínica tem relação íntima com a vida cotidiana, sendo comum que muitas lembranças não se encaixem imediatamente, a angústia e o engano sempre se farão presentes, e tudo o que se passa de dificuldades para analisar os fatos na vida real, repetir-se-á na clínica.

As resistências e atuações do paciente sempre comprovam que sua presença na clínica não é mágica ou diferente da vida real, o paciente apresenta-se com todas as suas defesas psíquicas comprometidas com os desejos inconscientes de procurar mantê-lo num discurso com a finalidade de dificultar qualquer compromisso de mudança, uma vez que já conhece os muitos conselhos que qualquer psicólogo poderia lhe oferecer. 

Há uma célebre frase de Ghandi: ” Precisamos ser a diferença que queremos ver no mundo. ” 

Isto é tão óbvio que logo perguntamos, mas o paciente não quer mudar, não quer acabar com seus problemas e sofrimentos?

Continuar com sua vida inalterada não implica em ser cúmplice de um sofrimento cada vez maior?  

Esta é a angústia clínica da qual o trabalho do psicólogo procurará dar conta. 

 Romeu Jesus Tieppo

Psicólogo Clínico

 

 

Florianópolis, 17 de Junho de 03.

Psicanálise como alternativa de tratamento na atualidade



O ser humano, ao longo da história, sempre procurou por algo que apresentasse alguma espécie de conhecimento sobre as coisas que o angustia. A igreja, o estado, filosofias e ideologias por muitos anos assumiram esse papel. No entanto, existe uma lacuna onde encontra-se um número crescente de pessoas que, por sentirem-se desamparadas ou limitadas por essas instituições, abandonaram suas práticas ou colocaram-nas em segundo plano.

Com isso, a angústia permanece, há coisas na pessoa que não vão bem. A procura pelo mesmo modelo de alívio que aquelas instituições proporcionavam continua, ou seja, ir em busca de algo que dê um sentido para aquilo que a angustia, seja através de diagnósticos, ajustamentos de conduta, remédios, entre outras coisas. Todas essas formas de tratamento produzem um rápido alívio por amenizarem o sintoma, tratando-o como algo que apenas incomoda, que não faz parte da pessoa e que deve ser eliminado.

Esse alívio, causado pelos procedimentos citados acima, sem dúvida, acalma o sintoma, mas não o elimina. Ele insiste.

Essa insistência se dá devido a uma característica do sintoma por muitos ignorada. Ele representa a parte da pessoa que ela mais desconhece. Por trás dele está toda uma história na qual se encontram as fantasias, os medos, a sexualidade, enfim, coisas que, devido à sua natureza conflituosa, tentou-se deixar para trás, mas que retornam de uma forma incômoda, pois fazem parte de uma lógica que foge ao sujeito, a lógica do desejo. É dessa lógica que surgem aquelas coisas que passam pela cabeça e que são rejeitadas por parecerem inúteis, nojentas, imorais, vergonhosas, enfim, coisas que nunca deveriam ser pensadas, mas que insistem em nos perturbar.

O rompimento com essa parte desconhecida do próprio sujeito indica um conflito entre ele e seu desejo, o que resulta em uma vida que gira em torno do que lhe causa mal estar, não permitindo dirigir seus atos às coisas que estão em sua volta, como trabalho, pessoas próximas, objetivos etc. Em casos mais extremos, tem-se a sensação de uma vida “morta”, na qual nada mais causa interesse, nada mais tem sentido.

A Psicanálise traz o espaço de escuta do mal estar que a pessoa está sentindo, permitindo que ela retome suas histórias, fantasias, medos, sua sexualidade, enfim, coisas presas nesse algo incômodo que é o sintoma.

Colocando em movimento esta parte há muito tempo deixada de lado, começa a vir a tona uma série de coisas adormecidas e que fazem o sujeito despertar para a vida.

Esse movimento o tira da miséria na qual vivia, cheio de interdições, paralisações, podendo o sujeito ir além. À medida que o caminho vai se abrindo para o desejo, maior é a implicação que ele tem com as coisas que faz, ou seja, maior é o interesse e a responsabilidade que ele vai ter com seu trabalho, pessoas próximas, compromisso etc., além de conseguir aceitar com mais facilidade os limites que a própria vida impõe.

Esse é o caminho inverso ao que as pessoas costumam fazer, muitas vezes guiadas por alguns tratamentos que, como citado anteriormente, procuram amenizar o sintoma, silenciando a parte da pessoa que não vai bem, deixando-a com uma vida cheio de privações e sofrimento.

Através desse mal estar é que podemos chegar no ponto onde está a vontade da pessoa. O percurso de uma análise é justamente esse, colocar em movimento partes do próprio sujeito que estão emperradas, permitindo a ele poder ir em frente e gozar da vida.


Ruben Demartini – Psicanalista

9111 7481 –

Ainda sobre psicanálise

Dói, dói muito ... 

Perceba nos depoimentos abaixo como a dor de cada um atinge cada pessoa de um modo especial e particular: 

“ ... Só sei que dói, dói muito. Já estive em muitos especialistas, sofri várias cirurgias, minha conta na farmácia é de espantar, tomo de tudo, desta vez os exames também não acusaram uma causa específica para o problema. Será que estou ficando louca? Quem me conhece diz que sim...”;

“ ... Naquela situação, preferia morrer... preferia ter morrido antes. E se me acontecer outra vez? Bobeira, bobeira minha, culpa minha, permiti, parece que eu desejei, que quis, que escolhi. Se acontecer outra vez me mato! ...”;

“ ... Porquê aconteceu aquilo? E agora que todos sabem? Que vergonha! Vou me mudar, vou sumir, como é que vou suportar? Se ao menos eu tivesse o poder de mudar os fatos ...”; 

“ ... Já pensei em me matar... Tentei, não deu certo. Porém, de certa forma, como tudo que faço dá errado, creio que vou sucumbindo aos poucos, ninguém nota ... Queria alguém que me valorizasse ...”; 

“ ... Nem sei como ainda estou vivo... Há pouco atravessei a rua sem olhar, se o carro não desvia... E teria sido muito melhor...  Eu é que sei, ao sair daqui vou ter que continuar enfrentando o olhar das pessoas...”; 

“ ... Olha, como foi eu não sei, estava lá, descontraída, visitando o prédio e caí, vários andares. Com certeza, acho que os médicos são mágicos! Não é cômico? Eu tinha tudo, mas era um inferno. Caí, e daí tudo mudou... Ainda falta algo, nunca estou feliz, nunca estou legal, falta alguma coisa... Tem horas que não sei ...”;  

“ ... Sabe, eu não entendo, faço tudo certo, sou honesto, correto com as pessoas, então sem mais nem menos furam comigo... O que tenho que fazer? Eu não entendo. Perder é que eu não vou ...”; 

“ ... Toda minha vida, fiz de tudo pelos meus filhos, ninguém poderia fazer melhor do que eu faço, olha só quanto que eu me desgasto, ... espera filho, quando a mamãe está no cabeleireiro conversando, a mãe não ... filho, você caiu? Vê só, como é que eu posso ter paz, é o dia todo assim! ... Anda filho, você fica com a babá que a mãe vai sair ... este menino precisa de uns calmantes ... que inferno, teu pai não serve para nada mesmo ...”; 

“ ... Não sei porquê fico tão triste, não tem motivo ... Toda minha vida foi assim, me sinto inferior ... Nada justifica, de repente fico agressiva, sinto raiva, ódio ... Tenho medo de ficar só ...”; 

“ ... Às vezes a notícia é tão ruim que causa um mal estar, noutras dissimulo com perfeição, horas após sinto uma queimação na boca do estômago, vou superar, nada melhor que um cigarro, uma bebida, uma noitada, uma cheirada, uma corrida até a geladeira, um filme de ação, um banho de loja, amanhã começo o meu regime e vida nova, um pouco de sexo animal, uma mentira a mais, um truque do Mandraque, esqueço, faço de conta que é com o vizinho, uma viagem talvez, uma comida especial, um carinho e um chamego, um relaxamento, um restaurante, um motel, um carro novo, mil beijos no carnaval, terapia do sorriso da gargalhada do choro, estou só, olhando pela janela, buscando aquele ponto distante, minha cama me chama, quero ficar só, solidão, nenhuma explicação, minha aconchegante coberta, meu ursinho, apenas a necessidade de pensar, achar uma saída, vou ver outra vez este filme da tevê, juiz ladrão foi pênalti, droga ninguém responde meu e-mail, que frio, olha só a que ponto cheguei, preciso consultar outro médico, quem sabe este acerta, alguém deve saber porquê estou assim, já rezei e orei tanto, estou sempre sentindo esta dor aqui, você está vendo, mas não é só aqui, dói em mais um monte de lugares, preciso de um check-up ...”.     

O sofrimento humano sempre fica evidenciado em situações críticas: 

· aquelas de fracasso – a impotência aliada à incompetência;

· ou as falta de dignidade – provocando sentimentos de desvalia como a humilhação;

· ou quando a solidão torna-se porto seguro para enfrentar as perdas que a vida oferece;

· ou quando o apoio das drogas é necessário para a ausência de relações e de hábitos de qualidadade.  

Porém não significa que pessoas com a aparência feliz e de sucesso não possuam sentimentos interiores de muito sofrer, seja da culpa de estarem sempre em dívida com tudo que lhe cobram, ou da ansiedade devido ao preço a pagar pelo tanto que têm que se corromper para manter a vida que levam, ou de inferioridade e muita insatisfação ao suportarem conviver com situações para as quais nada explica como aceitam conviver e porque não encontram saída para livrarem-se destas.

Na fragilidade das relações humanas, o sofrer torna-se expressão para a maldade de cada um. Há sempre um algoz que causa o sofrer cotidiano de um outro, há sempre uma vítima corrompendo-se, buscando e aceitando o sofrimento. Algoz e vítima, coniventes e complementares, esforçando-se para satisfazer os impulsos de prazer, desprezando o desgaste emocional, embora todas as queixas, custos, perdas de tempo e dores, muitas dores.

Assim, quando a vítima sofre, também ocorre o sofrimento do algoz que o mal pratica, e de que pode vir a ser este o que suporta o maior ônus, tal como acontece em muitos casos de alcoolismo. Portanto, a comparação deve ser evitada, pois as intenções, desejos e impulsos não são revelados com facilidade.  

Deve-se considerar as atitudes complementares da vítima, provocando o algoz, e suportando seus caprichos. Haverá pontos de vista muito particulares na avaliação dos sentimentos envolvidos, e as regras serão camuflar e manipular, com o objetivo de obter o máximo da relação.

Facilmente o observador irá criticar, julgar, condenar e apontar para o algoz, e dificilmente propor-se-á a refletir sobre a mudança de comportamento da vítima, a qual age e toma as atitudes necessárias para garantir os benefícios do martírio que sofre.  Apontar o malfeitor, é estimular os discursos característicos deste, que expressam sentimentos de injustiça e inveja na natureza das pessoas que não o compreendem, pois também ele não percebe sua implicação neste jogo sórdido.  O comprometimento necessário para a coexistência entre o algoz e sua vítima é tão evidente, que ambos tornam-se imprescindíveis para a sobrevivência do parceiro, embora todas as queixas, acusações e tormentos, no panorama em que observamos a relação complementar.  O sofrer humano é peculiar de cada pessoa, tal um poema, que sai das entranhas do poeta, para ganhar vida, emoção e sentimentos com a interpretação daquele a quem lhe é apresentado.

 

No sofrer humano, nem sempre se é apresentado ao poeta, e muitas vezes, nem percebemos de que poema se trata, se é um poema de amor, ou se de ódio o poema se preenche. 

Aqui muito falo de um sofrer, de uma dor especial, a qual não cessa, e que tem causas, implicações e conseqüências nem sempre explícitas, nem sempre compreendidas, raramente aceitas com facilidade, negadas com veemência.  

Adotam-se muitos nomes conhecidos, dentre os quais cita-se a dor no peito ou o nó na garganta(angústia), a palpitação descontrolada ou o roer das unhas(ansiedade), a necessidade de organização e mania de limpeza(obcessiva), as doenças psicossomáticas(comuns no aparelho digestivo). São muitas as formas destas dores se manifestarem, contam com muitos nomes na mídia, principalmente nos diagnósticos, a sintomatologia deve ser respeitada e tratada, pois seus danos são evidentes e podem levar até à morte.   

Estas “dores” estão presentes nas muitas das formas de depressão, nos vários dos distúrbios psicóticos e neuróticos, na destemperança e no descontrole, nas múltiplas formas de dependência(os vícios, as drogas), na perda de valores, na diminuição da auto-estima, no isolamento e no afastamento de relações importantes, na baixa produtividade, na perda dos objetivos, no desemprego, na falta de referências de qualidade de vida, enfim, um infindável expressar o descrédito na própria felicidade, comprometendo-se com o próprio sofrer.  

(*) Todos os depoimentos acima são ilustrativos, didáticos e fictícios.

Texto de :

Romeu Jesus Tieppo,

psicólogo clínico de adolescentes e adultos.

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